Archive for outubro \30\UTC 2011

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Novos lugares

outubro 30, 2011

“Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
É se respeitar na sua força e fé

E se olhar bem fundo até o dedão do pé”

[Gonzaguinha]

 Abriu os olhos e não reconheceu o lustre.

Não era dia, e aquilo não era um despertar propriamente dito.

As paredes, iluminadas apenas por alguns fachos de luz oriundos de velas espalhadas pelo ambiente, não lhe remetiam outras lembranças.

Uma brisa fria entrava pela fresta da janela que mostrava o céu avermelhado. “Vai chover”, pensou ela.

Mas desfrutou da brisa que agitava levemente, de um lado para outro o tal lustre e lhe fazia eriçar de frio o corpo desnudo.

Procurou no seu arquivo de memória algum registro parecido daquele lugar, mas ainda assim não encontrara.

Mesmo sem identificar o logradouro, nem o código postal sentiu-se afortunada.

E agradeceu pela vida que a cada dia lhe apresentava novos lugares.

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Dívida

outubro 30, 2011

“devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido estar
do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido…”

(Itamar Assumpção e Alice Ruiz)

 “- É muito caro ir ao Brasil?

– Depende, se você programar com antecedência, não.

– Mas quanto exatamente?

– Ah uns £600.

– É… É mais caro do que ir a Cuba”

 

Já nem sei o que é mais caro, se passagens entre América e Europa, ou se o silêncio por não saber mais de ti.

Se a dúvida da resposta para tantas perguntas, ou se a certeza da tua falta, mais de um ano depois.

Pagaria Libras, Reais, Euros, Dólares ou qualquer outra moeda pra te ter por perto de novo. Mas teu sorriso não tem preço e a segurança da tua mão guiando a minha se esvaeceu deixando-me apenas a dívida impagável da saudade de ti.

Quantas alegrias economizadas? Quantos tostões de carinhos não dado?

Soma-se a isso a atenção redobrada que me dedicaste, ao cuidado em não me deixar passar frio. Somam-se também teus elogios a minha beleza tão bem comparada àquela atriz Hollywoodiana e ao teu olhar desconcertante, bem ao estilo dos galãs de romance americano.

Somam-se ainda tuas esperas por mim na estação de trem, do metrô e até no pub, mesmo sem beberes uma gota de álcool.

Uma conta que somou tanto não podia deixar pendências.

Ainda penso em adquirir um empréstimo da vida para pagar meu débito…

 

 

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Desassossego

outubro 30, 2011

“Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho”

[Cazuza – Blues da Piedade]

 

Deitou a cabeça no travesseiro e sentiu aquele desassossego no coração que há muito não lhe visitava.

Relembrou todos os sentimentos semelhantes que já havia sentido no passado:

As inúmeras vezes em que não foi atendida;

As atitudes de descaso presenciadas e nem sequer justificadas;

O apetite perdido que lhe levou a silhueta bela e formosa;

O calafrio que cobertor nenhum conseguiu aquecer;

O tremor da carne fatigada pelo cansaço de uma batalha muito próximo da derrota.

Recordou também as lágrimas vertidas dias, tardes, noites e madrugadas a fora;

A energia desprendida na disputa e no vigor das artimanhas planejadas e executadas;

A falta de concentração nos afazeres mais simples;

E a completa incapacidade diante daquela tarefa que outrora lhe dava muito prazer;

Pensou… Sentiu… E decidiu que isso tudo não deveria voltar.

Apertou mais uma vez a tecla verde escrita “send” e não obtendo resposta, dormiu.

Amanheceu com pedido de desculpas terno e sincero, e teve a certeza de que o passado realmente deve ficar para trás.